Introdução
A discussão sobre o fim da escala 6×1 entrou em uma etapa decisiva no Congresso Nacional. A proposta em tramitação no Senado prevê reduzir a jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais, estabelecer dois dias de repouso semanal remunerado e manter os salários, com implementação gradual. Em 2 de setembro de 2026, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou o texto e o encaminhou ao Plenário. Portanto, a mudança ainda não está em vigor.
Mas uma questão merece atenção especial: o impacto não será igual para todas as profissões.
Uma empresa que funciona de segunda a sexta-feira, em horário comercial, pode ter relativa facilidade para reorganizar a jornada. Já hospitais, restaurantes, supermercados, hotéis, farmácias, shoppings, empresas de transporte e outros negócios que precisam funcionar durante longos períodos — ou 24 horas por dia — enfrentam um problema diferente: como manter o mesmo período de funcionamento com menos horas disponíveis por trabalhador?
A resposta poderá envolver novas escalas, contratação de trabalhadores, redistribuição de horários, tecnologia, aumento de produtividade, negociação coletiva e, dependendo do setor, mudanças nos preços e nos modelos de atendimento.
Este artigo analisa o tema sob uma perspectiva econômica e empresarial, separando o que já está definido no texto em tramitação daquilo que ainda depende da aprovação e regulamentação.
O que significa acabar com a escala 6×1?
A escala 6×1 representa, em termos gerais, uma organização na qual o trabalhador trabalha seis dias e tem um dia de descanso.
O modelo é compatível com a atual Constituição, que estabelece jornada normal de até 8 horas diárias e 44 horas semanais, além do repouso semanal remunerado.
A proposta que avançou no Congresso muda essa estrutura.
O texto da PEC 221/2019, aprovado pela Câmara e mantido pelo relator no Senado, estabelece:
- jornada máxima de 40 horas semanais;
- até 8 horas diárias;
- dois dias de repouso semanal remunerado;
- manutenção do salário;
- possibilidade de compensação de horários;
- redução gradual da jornada;
- possibilidade de regras específicas para determinados regimes e situações.
A Câmara aprovou a proposta em dois turnos em maio de 2026, por ampla maioria. No segundo turno foram 461 votos favoráveis e 19 contrários.
No Senado, a CCJ aprovou o texto em 2 de setembro de 2026. Agora a proposta precisa passar pelo Plenário do Senado, em dois turnos, com aprovação de pelo menos três quintos dos senadores — 49 dos 81 parlamentares — para seguir adiante.
Portanto, não é correto afirmar que a escala 6×1 já acabou.
O que existe atualmente é uma proposta constitucional em fase avançada de tramitação.
Por que o impacto será diferente entre as profissões?
A principal razão está na diferença entre jornada do trabalhador e horário de funcionamento da atividade econômica.
Imagine duas empresas.
A primeira funciona das 8h às 18h, de segunda a sexta-feira.
A segunda funciona 24 horas por dia, sete dias por semana.
Se ambas precisarem reduzir a jornada individual dos trabalhadores, o desafio será completamente diferente.
Na primeira empresa, pode ser possível reorganizar horários sem aumentar significativamente o número de empregados.
Na segunda, a empresa precisa continuar cobrindo todos os horários.
Isso pode exigir:
mais trabalhadores → novas escalas → maior complexidade operacional → possível aumento de custos.
É justamente por isso que a discussão sobre o fim da 6×1 não deve ser analisada apenas como uma questão de número de horas.
É também uma questão de organização produtiva.
Saúde: provavelmente um dos setores mais complexos
Hospitais, pronto-atendimentos, clínicas com funcionamento ampliado, laboratórios, serviços de emergência e outras atividades de saúde apresentam uma característica fundamental:
não podem simplesmente fechar quando termina a jornada de um trabalhador.
Um hospital precisa manter equipes durante a madrugada, fins de semana e feriados.
Se um profissional passa a trabalhar menos horas, a instituição precisa garantir que outra pessoa esteja disponível para ocupar o período restante.
Isso pode significar:
- reorganização das escalas;
- contratação de profissionais adicionais;
- redistribuição das equipes;
- alteração dos horários dos plantões;
- maior utilização de sistemas de gestão de escalas;
- revisão da produtividade das equipes;
- negociação coletiva para determinadas funções.
O próprio Congresso promoveu audiências públicas para discutir os impactos da proposta sobre diferentes setores, incluindo representantes da área de saúde. Na Câmara, participaram das discussões entidades como a Confederação Nacional de Saúde, Hospitais e Estabelecimentos e Serviços de Saúde.
O problema não é apenas o custo
Existe também uma questão de disponibilidade de profissionais.
Se determinado hospital já trabalha com escassez de mão de obra, reduzir a jornada sem aumentar a capacidade de contratação pode tornar mais difícil preencher todos os turnos.
Por outro lado, uma jornada melhor distribuída pode contribuir para reduzir fadiga e melhorar condições de trabalho.
Portanto, o resultado final dependerá da combinação entre:
jornada + disponibilidade de profissionais + produtividade + organização das escalas.
Não é possível afirmar antecipadamente que o efeito será necessariamente positivo ou negativo para todo o setor.
Comércio: um dos segmentos mais diretamente afetados
O comércio merece atenção especial porque possui forte presença de estabelecimentos que funcionam aos sábados, domingos e feriados.
Segundo o IBGE, o grupamento de comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas tinha aproximadamente 19,5 milhões de pessoas ocupadas em 2025, sendo o maior grupamento em número absoluto entre as atividades econômicas apresentadas na PNAD Contínua.
Isso ajuda a dimensionar a importância econômica do setor.
Supermercados, lojas, farmácias, shopping centers e outros estabelecimentos precisam administrar uma questão prática:
quem estará trabalhando quando parte da equipe estiver de folga?
Uma possibilidade é aumentar o número de empregados.
Outra é reorganizar as escalas.
Também pode haver maior investimento em:
- autoatendimento;
- sistemas digitais;
- gestão de estoque;
- automação;
- inteligência artificial;
- meios de pagamento;
- logística;
- planejamento de escalas.
O objetivo seria produzir ou atender mais por hora trabalhada.
Restaurantes, bares e alimentação
O setor de alimentação fora do lar apresenta uma dificuldade ainda maior.
Restaurantes, bares, lanchonetes, cafeterias, hotéis e estabelecimentos similares podem concentrar a demanda justamente nos horários em que outros setores estão fechados.
Sextas-feiras à noite, sábados, domingos e feriados podem representar períodos importantes de operação.
A PNAD Contínua mostra que o grupamento de alojamento e alimentação possui características próprias de jornada e emprego. No segundo trimestre de 2025, por exemplo, a média de horas trabalhadas no grupamento era inferior à observada em várias outras atividades, mas isso não significa que o estabelecimento individual possa simplesmente reduzir seu período de funcionamento.
Essa distinção é fundamental:
reduzir a jornada individual não significa necessariamente reduzir o horário de funcionamento da empresa.
Um restaurante pode continuar aberto durante 12 horas por dia, mas precisar de mais pessoas para cobrir essas horas.
Isso pode pressionar:
- folha de pagamento;
- contratação;
- treinamento;
- custos administrativos;
- produtividade;
- preços;
- margem de lucro.
Por outro lado, uma melhor distribuição da jornada pode reduzir rotatividade e melhorar a capacidade de retenção de trabalhadores.
Hotéis e turismo: funcionamento contínuo
A hotelaria apresenta características semelhantes.
Recepção, limpeza, manutenção, segurança e outros serviços precisam funcionar em horários diferentes.
A discussão sobre a PEC na Câmara incluiu audiência pública específica sobre turismo, hotelaria, bares e restaurantes, com participação de representantes do Ministério do Turismo e de entidades empresariais do setor.
A questão central será:
como manter uma operação de 24 horas com trabalhadores submetidos a uma jornada semanal menor?
A resposta provavelmente envolverá uma combinação de escalas e dimensionamento de equipes.
Transporte e logística
Outro segmento que merece atenção é o transporte.
Cargas, passageiros, centros de distribuição, armazéns e operações logísticas possuem horários que muitas vezes ultrapassam a jornada convencional.
A redução da jornada pode exigir:
- revezamento de equipes;
- contratação adicional;
- planejamento mais rigoroso;
- redução de períodos ociosos;
- automação;
- melhor utilização dos veículos e equipamentos.
Nesse setor, uma hora parada pode representar custo sem geração de receita.
Por isso, gestão operacional será fundamental.
Indústria: o impacto pode depender do tipo de operação
A indústria apresenta situações muito diferentes.
Uma indústria que trabalha em horário administrativo pode ter facilidade para reorganizar a jornada.
Já uma fábrica que opera continuamente precisa lidar com turnos.
Uma sondagem da CNI publicada em julho de 2026 apontou que 97% das indústrias pesquisadas afirmaram que seriam impactadas por uma eventual redução da jornada. A pesquisa ouviu mais de 1.366 empresas das indústrias extrativa e de transformação e 298 empresas da construção.
A mesma pesquisa informou que a jornada semanal de 44 horas era predominante entre as empresas industriais pesquisadas: 85% declararam utilizar esse regime.
Isso demonstra que o impacto potencial não se restringe ao comércio.
Entretanto, é importante separar estimativa setorial de resultado efetivamente observado.
A mudança ainda não entrou em vigor. Portanto, números sobre futuras perdas ou ganhos devem ser tratados como projeções, não como fatos consumados.
Construção civil: outro caso particular
Na construção civil, o problema é diferente.
O trabalho ocorre em canteiros, com equipes que dependem de coordenação entre diferentes atividades.
Uma redução da jornada pode exigir:
- reorganização das equipes;
- mudanças nos cronogramas;
- maior produtividade por hora;
- redistribuição das etapas;
- contratação adicional em determinadas funções.
Além disso, existe uma característica importante: nem toda função possui facilidade de substituição imediata.
Um trabalhador qualificado não é necessariamente substituível por outro no curto prazo.
Isso significa que a disponibilidade de mão de obra poderá ser tão importante quanto o custo salarial.
E os trabalhadores que já possuem jornada menor?
Nem todos os profissionais trabalham 44 horas semanais.
Existem categorias com jornadas específicas estabelecidas por legislação, acordos ou convenções coletivas.
A própria tramitação da PEC prevê tratamento diferenciado para determinados regimes. O Senado informa que o texto contém exceções para trabalhadores submetidos a regimes diferenciados e para determinadas situações profissionais.
Por isso, seria incorreto afirmar:
“todos os trabalhadores brasileiros passarão automaticamente da 6×1 para 5×2”.
A aplicação concreta dependerá do texto final aprovado e das regras específicas que forem estabelecidas.
O que pode acontecer com os salários?
A proposta aprovada pela Câmara e mantida pelo relator no Senado prevê redução da jornada sem redução salarial.
Do ponto de vista econômico, isso aumenta o custo da hora trabalhada se a produtividade por hora permanecer inalterada.
Exemplo conceitual:
Se uma pessoa recebe o mesmo salário, mas trabalha menos horas, o custo do trabalho por hora aumenta.
A empresa poderá responder de diferentes maneiras:
1. aumentar produtividade;
2. reduzir margens;
3. aumentar preços;
4. contratar mais trabalhadores;
5. automatizar processos;
6. reorganizar operações;
7. combinar várias dessas alternativas.
Não existe uma única resposta econômica.
É justamente por isso que existem divergências entre as projeções apresentadas por diferentes instituições.
O debate sobre inflação
Esse é um dos pontos mais controversos.
Entidades empresariais, como CNI e CNC, apresentaram estudos com estimativas de aumento de custos e possíveis impactos sobre preços.
A CNI, por exemplo, apresentou estimativa de impacto sobre custos empresariais e atividade econômica. A CNC também calculou potenciais efeitos sobre custos do comércio.
Mas essas são estimativas de entidades representativas, e não resultados observados após uma mudança já implementada.
Do outro lado, pesquisadores ouvidos durante o debate apontam que parte do impacto pode ser absorvida por ganhos de produtividade, redução de margens ou aumento da atividade decorrente do maior tempo livre dos trabalhadores.
Portanto, afirmar que:
“o fim da 6×1 necessariamente provocará inflação”
seria exagerado.
Da mesma forma, afirmar que:
“não haverá nenhum impacto sobre preços”
também seria uma conclusão que as evidências disponíveis ainda não permitem sustentar.
O impacto sobre o emprego
Outro ponto central é a possibilidade de criação ou redução de empregos.
Se uma empresa precisa manter o mesmo número de horas de funcionamento e cada trabalhador passa a trabalhar menos, existe uma possibilidade matemática de necessidade de contratação adicional.
Mas isso não significa automaticamente que milhões de empregos serão criados.
A empresa também pode:
- automatizar;
- aumentar produtividade;
- reduzir horários;
- reorganizar processos;
- utilizar tecnologia;
- reduzir margens;
- alterar sua estrutura operacional.
O efeito final dependerá da reação das empresas e do comportamento da economia.
O próprio debate parlamentar registra posições divergentes sobre esse ponto.
Um dos grandes fatores: produtividade
Talvez esta seja a variável mais importante de todo o debate.
Imagine uma empresa que atualmente produz 1.000 unidades utilizando determinada quantidade de horas.
Se a jornada diminuir, ela terá três possibilidades básicas:
produzir menos;
contratar mais pessoas;
produzir a mesma quantidade em menos horas.
A terceira possibilidade depende da produtividade.
Por isso, a discussão sobre redução da jornada inevitavelmente leva a outro debate:
quanto o trabalhador consegue produzir por hora?
Uma jornada menor não precisa necessariamente significar produção menor se houver aumento suficiente da produtividade.
Mas também não se pode presumir que esse aumento ocorrerá automaticamente.
Tecnologia poderá ganhar importância
Empresas submetidas a maior pressão sobre o custo da mão de obra tendem a avaliar investimentos capazes de aumentar produtividade.
Isso pode acelerar a adoção de:
- inteligência artificial;
- automação;
- sistemas de gestão;
- autoatendimento;
- robótica;
- sistemas de escala;
- análise de dados;
- digitalização de processos;
- equipamentos mais eficientes.
Nesse sentido, uma mudança na jornada pode produzir um efeito indireto:
menos horas disponíveis → maior pressão por produtividade → maior incentivo à tecnologia.
Mas isso também pode gerar uma diferença entre empresas.
Grandes companhias podem ter maior capacidade de investir em tecnologia.
Pequenas empresas podem enfrentar maior dificuldade financeira para realizar os mesmos investimentos.
Pequenas empresas podem sentir mais pressão
Esse é um ponto especialmente importante.
Uma grande rede de supermercados pode distribuir custos de tecnologia, treinamento e administração entre centenas de unidades.
Uma pequena empresa familiar pode ter poucos funcionários.
Se um trabalhador deixar de trabalhar determinado número de horas, a empresa pequena pode ter dificuldade para encontrar substituto ou contratar mais uma pessoa.
Isso significa que o impacto do fim da 6×1 provavelmente será heterogêneo não apenas entre profissões, mas também entre:
grandes empresas × médias empresas × pequenas empresas.
O texto em discussão prevê transição e mecanismos específicos relacionados a determinados segmentos e situações, mas a extensão dessas medidas dependerá do texto final e de eventual regulamentação.
O consumidor também pode ser afetado
O trabalhador não é o único personagem econômico envolvido.
Se o custo operacional de uma empresa aumentar, ela poderá tentar absorver esse custo.
Mas também poderá repassá-lo parcialmente ao consumidor.
Isso pode ocorrer principalmente em atividades intensivas em mão de obra.
Exemplos:
- restaurantes;
- salões de beleza;
- hotéis;
- serviços pessoais;
- comércio;
- saúde privada;
- serviços de manutenção.
Por outro lado, se a redução da jornada aumentar a renda disponível ou o tempo livre e isso estimular o consumo, determinados setores podem se beneficiar.
Pode surgir, portanto, um mecanismo de compensação:
menos horas trabalhadas → mais tempo livre → maior consumo em determinados serviços.
Mas o tamanho desse efeito ainda não pode ser conhecido antecipadamente.
O fim da 6×1 pode criar novos padrões de consumo
Existe um aspecto frequentemente esquecido.
Dois dias de descanso podem alterar a forma como as pessoas utilizam seu tempo.
O trabalhador pode ter mais disponibilidade para:
- lazer;
- restaurantes;
- turismo;
- cursos;
- esportes;
- atividades culturais;
- compras;
- convivência familiar.
Isso pode gerar demanda adicional justamente em setores como alimentação, entretenimento, turismo e serviços.
Portanto, existe uma possibilidade de o efeito econômico ocorrer nos dois lados:
a empresa pode ter custo maior com a mão de obra, mas determinados setores podem receber maior demanda dos consumidores.
Esse equilíbrio será diferente entre setores.
Quais profissões tendem a sentir mais?
Não existe uma lista oficial definitiva de profissões “mais afetadas”, porque a PEC ainda não foi promulgada e a aplicação concreta dependerá das regras finais.
Mas, olhando para a natureza das atividades, podemos fazer uma classificação analítica.
Maior potencial de impacto operacional
- profissionais de hospitais e serviços de saúde;
- trabalhadores de restaurantes e alimentação;
- comércio varejista;
- hotelaria;
- supermercados;
- trabalhadores de shopping centers;
- transporte e logística;
- segurança;
- serviços de manutenção contínua;
- operações industriais em turnos.
Impacto potencial intermediário
- construção civil;
- serviços administrativos com atendimento ampliado;
- empresas de serviços;
- call centers;
- operações de distribuição.
Potencialmente menor impacto operacional
- atividades administrativas de segunda a sexta-feira;
- profissões já submetidas a jornadas inferiores;
- atividades com possibilidade elevada de trabalho remoto ou flexível;
- empresas com alto grau de automação;
- funções nas quais a produtividade por hora pode ser ampliada com relativa facilidade.
Isso não significa que algumas profissões serão “beneficiadas” e outras “prejudicadas”.
Significa apenas que a capacidade de reorganização é diferente entre as atividades.
O que as empresas deveriam começar a analisar?
Mesmo antes da aprovação definitiva, empresas que trabalham com 6×1 podem começar a fazer simulações.
1. Mapear as jornadas atuais
Identificar:
- número de trabalhadores;
- horas trabalhadas;
- escalas;
- folgas;
- horas extras;
- períodos de maior demanda.
2. Calcular horas disponíveis
A pergunta principal é:
quantas horas de trabalho a empresa precisa para manter sua operação atual?
3. Simular novas escalas
Criar cenários:
5×2
escalas de revezamento
turnos alternativos
contratação adicional
4. Medir produtividade
Descobrir quanto cada hora de trabalho efetivamente produz.
5. Calcular impacto financeiro
Avaliar:
folha + encargos + contratação + treinamento + tecnologia + horas extras + produtividade.
6. Identificar processos automatizáveis
A redução da jornada pode tornar determinados investimentos economicamente mais interessantes.
7. Rever preços e margens
Não significa aumentar preços automaticamente.
Significa conhecer o limite econômico da empresa antes que a mudança entre em vigor.
O que pode mudar na relação entre empresas e trabalhadores?
A discussão pode provocar uma mudança importante na gestão.
Historicamente, muitas empresas administram mão de obra principalmente pela quantidade de horas disponíveis.
Uma jornada menor pode aumentar a importância de indicadores como:
produção por hora;
vendas por hora;
atendimento por hora;
receita por empregado;
produtividade por equipe;
custo por unidade produzida.
Isso pode representar uma mudança de mentalidade:
de controlar horas para administrar produtividade.
A escala 5×2 será igual para todos?
Não necessariamente.
A proposta prevê dois dias de repouso semanal remunerado, mas a organização concreta das jornadas dependerá das regras aplicáveis.
O texto aprovado na Câmara e mantido pelo relator no Senado prevê que um dos dias de descanso seja preferencialmente aos domingos e admite compensação de horários.
Portanto, uma empresa que funciona aos domingos poderá continuar funcionando.
O que muda é a organização das equipes.
Um hospital não precisa fechar aos domingos.
Um restaurante não precisa fechar aos domingos.
Um supermercado não precisa deixar de funcionar aos domingos.
O desafio é garantir que os trabalhadores tenham seus períodos de descanso enquanto a operação continua funcionando.
O grande desafio será a transição
Mudanças dessa dimensão não acontecem apenas pela publicação de uma regra.
É necessário tempo para:
planejar → contratar → treinar → reorganizar → testar → ajustar.
É por isso que o texto prevê implementação gradual.
A proposta analisada no Senado estabelece uma redução progressiva da jornada, e o texto aprovado pela Câmara previa período de transição.
Para empresas intensivas em mão de obra, esse período pode ser fundamental.
O que ainda não sabemos?
É importante não transformar projeções em fatos.
Ainda não sabemos, com segurança:
- qual será o impacto final sobre os preços;
- quantos empregos serão criados ou eliminados;
- como cada setor adaptará suas escalas;
- qual será o impacto sobre a produtividade;
- como pequenas empresas reagirão;
- quanto da diferença será absorvida pelas margens;
- quanto será repassado aos consumidores;
- quais profissões terão regulamentação específica;
- qual será o efeito final sobre o PIB.
Essas respostas dependerão da aprovação definitiva, regulamentação, comportamento das empresas e trabalhadores e evolução da economia.
O que já podemos afirmar com segurança?
Algumas conclusões, entretanto, são possíveis.
Primeiro:
a escala 6×1 ainda não acabou.
A PEC foi aprovada pela Câmara e pela CCJ do Senado, mas ainda precisa ser votada pelo Plenário do Senado.
Segundo:
O texto atualmente em análise prevê 40 horas semanais e dois dias de repouso, sem redução salarial.
Terceiro:
O impacto será diferente entre as atividades.
Uma operação administrativa não enfrenta o mesmo desafio de um hospital, restaurante ou supermercado.
Quarto:
Empresas que precisam funcionar continuamente provavelmente terão de dar maior atenção ao planejamento de escalas.
Quinto:
Produtividade, tecnologia e gestão poderão ser determinantes para absorver parte dos efeitos.
Sexto:
Não é possível afirmar antecipadamente que a mudança produzirá apenas benefícios ou apenas custos.
O resultado será uma combinação de efeitos trabalhistas, empresariais, econômicos e sociais.
O verdadeiro debate: trabalhar menos ou produzir melhor?
Essa talvez seja a questão econômica mais importante.
O debate não deveria ser reduzido a:
“6×1 é bom ou ruim?”
A pergunta mais relevante é:
Como reduzir a jornada sem destruir produtividade, empregos e capacidade de oferta — e como transformar o ganho de tempo do trabalhador em melhoria efetiva de qualidade de vida e atividade econômica?
A resposta passa por produtividade.
Se a economia conseguir produzir mais por hora, uma jornada menor pode ser absorvida com menor impacto.
Se a produtividade permanecer estagnada e as empresas não conseguirem reorganizar seus processos, a pressão sobre custos poderá ser maior.
O próprio debate parlamentar mostra essa divergência. Há argumentos de que trabalhadores mais descansados podem ser mais produtivos, enquanto entidades empresariais alertam para custos e competitividade.
Conclusão
O fim da escala 6×1, caso aprovado definitivamente, não produzirá o mesmo efeito em todas as profissões.
Para trabalhadores de atividades administrativas, a adaptação pode ser relativamente simples.
Para setores que funcionam continuamente — como saúde, comércio, alimentação, hotelaria, transporte e determinadas operações industriais — o desafio será maior porque a empresa precisará conciliar dois objetivos:
reduzir a jornada individual sem necessariamente reduzir o horário de funcionamento.
Isso poderá exigir novas escalas, contratação, treinamento, tecnologia, automação e ganhos de produtividade.
Para os trabalhadores, dois dias de descanso podem representar mais tempo para família, lazer, estudo e recuperação.
Para as empresas, a mudança exigirá planejamento financeiro e operacional.
Para os consumidores, poderá haver efeitos diferentes: alguns preços podem sofrer pressão, enquanto determinados setores podem receber demanda adicional decorrente do maior tempo livre.
E para a economia brasileira, o resultado dependerá de uma variável fundamental:
produtividade.
O fim da 6×1 não deve ser analisado apenas como uma mudança na escala de trabalho. Ele pode representar uma mudança na maneira como empresas organizam pessoas, tecnologia e produção.
A grande questão não será simplesmente trabalhar menos. Será descobrir como produzir melhor com menos horas de trabalho.
FONTES OFICIAIS
- Senado Federal
- Câmara dos Deputados
- IBGE — PNAD
- Agência Senado
AVISO LEGAL: Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. As informações apresentadas não constituem recomendação de investimento, consultoria financeira, jurídica ou tributária. Antes de tomar decisões financeiras, avalie sua situação específica e, se necessário, consulte um profissional qualificado.

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